Preparem-se, está para chover aqui. Andei pensando muito, perdi cabelos nessa. Entrei numa ilusão de que podia infinitamente mais que minha idade, que meu corpo, que os limites da cidade. Tenho comigo agora sinais de velhice, isso consegui quando empreendi uma busca para beber de um elixir de juventude. Aprendi que os caminhos trazem paisagem a granel, que o durantes são o que se tem para curtir e que o fim da estrada não chega livre da tristeza de se ter de inventar uma outra caminhada. Tomei algumas decisões. Chega de documentários sobre ditadura. Chega de pular gratuitamente em todo caldeirão de sentimento que me venha pela frente. Chega de abusar da pele, quero distância de tudo que possa vir a queimar-me os pêlos. Devo parar de topar com tudo. Ainda acredito possuir super-poderes, estou aprendendo é a reconhecer minhas fraquezas. Ainda pretendo acontecer com meus sonhos, ser aquilo que tenho projetado com zelo. Por todos esses anos, especialmente pelos últimos, em que tenho recordado o estado de mudez, concentrado tanto no exercício de ouvir e completar os espaços onde a lógica costumava abandonar o pensamento, que desaprendi, atrofiei. Confiem a mim a mão. Primeiro chovo, é por escolha. Me faço ser agora companhia para passeio: Agora sei que existe fome, doença, descaso e violência. Percebo além da minha falta de habilidade, a constante inexpressiva das palavras. As definições enquanto garantem dados significados, perdem pencas de outros tantos nesse esforço. No entanto, não podemos manter-nos incomunicáveis. É preciso fechar acordos. É preciso fazer escolhas, ponderando os termos dos contratos. Assumi o desafio de me manter plural. Acolhi o pensamento sistêmico. Quando foi pra fazer uso dos artifícios com os quais me havia cercado, vi foi que mais complicado eu havia me tornado. Mas que para mim não havia outro percurso, não via válidos atalhos. Dos caminhos, os mais desgastantes, dos sorrisos, estoques: esgotados. Tenho sentido o cansaço. Tenho sido lembrado de minha idade. O que eu mais quero? Passa certamente pela felicidade. Só que parece que não consigo isso sozinho ou se vejo gente muito pior do que me declaro. Para mim não está claro como conciliar a entrega justa e bem repartida de meu ser em estudo/trabalho/amor/amizade/arte, arte/ciência/saúde/sociedade, desejos de viagens ao redor do mundo e dinheiro de esmola pra inteirar a passagem. Percebam a carência de manifesto expresso com que me deparo. (Continua...)
Escrito por Pelvis às 21h38
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